Atropelei a liberdade
Não foi de propósito.
Nunca é. Isso é o que todos dizem!
O pássarinho simplesmente decidiu voar. Não para longe, não para o céu aberto, nem para a árvore mais próxima — foi direto para o meu para-choque. Um voo tão curtinho, talvez apressado, mal calculado. O tipo de escolha que dura um segundo e cobra caro.
Ouvi o impacto seco, em seguida olhei pelo retrovisor. Aquele som não deixa dúvida. Segui alguns metros, parei no acostamento e desci. No asfalto, o lindo animal no chão, parado, sem vida.
Fiquei triste pensando no absurdo da cena. Atropelar um pássaro não é como atropelar qualquer coisa. Pássaros carregam um peso simbólico incômodo: representam a liberdade. E atropelar a liberdade — ainda que sem intenção — é sempre um acontecimento tenso demais para passar despercebido.
Talvez ele estivesse fugindo. Talvez estivesse distraído. Talvez confiasse demais no vento. Ou, quem sabe, apenas acreditasse que ainda dava tempo. Às vezes também acho que dá.
Voltei ao carro com um aperto estranho no peito. Não era culpa, exatamente. Era reconhecimento. Quantas vezes a gente não voa assim? Em linha reta para o impacto, convencido de que o mundo vai desviar da gente?
Segui viagem. O trânsito continuou. A vida continuou, Goiás seguiu quente, seco, indiferente. E eu, um pouco menos leve do que antes, carregando a lembrança de um voo que terminou tão cedo— e a certeza de que liberdade exige mais do que asas: exige cálculo, silêncio e, às vezes, a coragem de não voar.
Autor
Pedro I.
Amei o texto, muito reflexivo!
ResponderExcluirOrgulho do meu amigo. Escrita fluída, e com o tom melancólico bem Drummondiano. Amei
ResponderExcluirEu achei bem interessante o texto, pois ele mostra um reflexão que devemos levar pra vida. Mesmo que seja de um triste história sobre um pássaro, mostra que devemos ser cautelosos, ser atentos aos perigos da vida.
ResponderExcluirO mais chato é perceber que o impacto não começa na batida começa bem antes, naquele momento em que a gente escolhe acreditar que vai dar tempo. Que o mundo vai frear, que o caminho vai abrir, que dessa vez vai ser diferente.
ResponderExcluirAmei o texto, muito reflexivo as vezes você tentar coisas novas pode dar errado mas pelo menos você tentou, ótimo texto continue produzindo
ResponderExcluirEsse conto é muito bom para reflexão da vida
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