USEI VALDA, E AGORA, DR. CHAT?
Tarde para alguns. Cedo pra mim.
Eu estava sentado à mesa do meu quarto, encarando o computador com aquela preguiça típica de adolescente — mesmo não sendo mais um. Só de pensar na videoaula de quarenta minutos que eu ainda teria pela frente, o corpo já pedia arrego.
Foi então que percebi: havia uma espinha em estágio inicial, dessas que não fazem muito barulho, mas incomodam. O detalhe era a localização. Uma região… peculiar. O tipo de inchaço dolorido que não nos deixa dormir e, pior, não nos deixa em paz com os próprios pensamentos.
Pensei rápido, como todo especialista em automedicação caseira:
— Vou passar um gelzinho.
O gelzinho em questão atendia pelo nome de Valda, aquela pomada na latinha redonda que, segundo minha avó, “cura tudo, meu filho”. Apliquei confiante. Amanhã essa espinha não existirá mais, pensei, enquanto ignorava qualquer noção básica de bom senso.
Mesmo assim, resolvi consultar um colega virtual que costuma sanar dúvidas do dia a dia. Um sujeito conhecido como Dr. Chat. Como todo bom paciente ansioso, fui direto à pergunta:
— Olá, chat. Estou com uma espinha numa região X do corpo. Passei um gel Valda. Devo me preocupar?
A resposta veio rápida. E seca.
O mentol poderia irritar a pele. Causar ressecamento. Piorar a inflamação.
Foi nesse momento que a preocupação surgiu. Eu confiava no Dr. Chat. Ele já tinha me ajudado em outras situações. Mas eu também confiava na minha pomadinha. Afinal, ela já fazia parte da família. Não era a primeira vez que eu recorria a ela.
Comecei a argumentar. Listei casos. Experiências passadas. Resultados positivos. Em dez minutos de conversa, acrescentei ainda que minha outra aliada, a nistatina — oficialmente uma pomada para assaduras — também já havia salvado minha pele em outras ocasiões. Não só salvado: embelezado. Após uma noite de uso, eu acordava com pele de bebê. Fato.
Algo, porém, me incomodou na resposta do Dr. Chat. Ele mencionou que a nistatina combatia fungos e que isso poderia mascarar situações. Na hora pensei, indignado:
— Ah, seu maldito… tá dizendo que minha cara tem fungos?
Respirei. Continuei retrucando. Expliquei que aquelas teorias não se aplicavam a mim. Provavelmente meu corpo tinha se adaptado. Ou, quem sabe, eu fazia parte de um grupo seleto de pessoas para quem certas loucuras simplesmente funcionam.
Aprendi bastante naquela conversa. Sobre efeitos, riscos, usos corretos. Mas deixei claro: não abriria mão das minhas aliadas. Elas já me acompanhavam havia anos. E, se estavam comigo até agora, algum mérito tinham.
No fim, percebi que muitos hábitos carregam consequências que variam de pessoa para pessoa. Nem tudo que faz mal a alguém fará mal a mim. Nem toda advertência científica se confirma na experiência individual. Às vezes, os costumes revelam soluções improváveis.
Talvez a ciência discorde de mim.
Mas minha pele, curiosamente, não.
E assim sigo pertencendo a esse grupo seleto — talvez irresponsável, talvez adaptado — de pessoas que curaram espinhas com nistatina e tentaram tratar inchaços com Valda.
Com orientação médica? Não.
Com histórias pra contar? Sempre.
Autor
Pedro I.
Excelente! Amei na mesma medida que amo a nistatina na minha pele kkkkk.
ResponderExcluirParece minha pica
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