Muita metáfora para pouca relevância.

 Pra que pintar o vazio?


Há dias em que tudo parece precisar de explicação. Não uma explicação qualquer, mas uma dessas cheias de voltas, como se a realidade fosse insuficiente e precisasse de enfeites para ser aceita.

É a hora em que alguém não diz simplesmente que está triste — diz que “carrega um oceano dentro do peito em maré baixa e sem bússola emocional”. E, de repente, a tristeza perde o lugar que ocupava e vira um espetáculo de linguagem. Bonito, talvez. Mas distante. Quase inalcançável.

Nem sempre isso ajuda. Às vezes, só atrapalha.

Porque há coisas que já nascem claras, e insistir em iluminá-las demais é como acender holofotes sobre uma vela: o excesso não melhora a visão, só ofusca. E há momentos em que tudo o que se quer é justamente o contrário — menos luz, menos ruído, menos tradução.

O problema não está na metáfora em si. Ela tem seu valor, sua beleza, sua função. O problema está no excesso, na obrigação de transformar tudo em comparação, como se o simples precisasse pedir desculpas por ser simples.

E há uma leveza esquecida nisso tudo: a de dizer o que é, sem precisar vestir a ideia com roupas maiores do que ela. “Estou cansado.” Ponto. Sem montanhas, tempestades ou desertos internos. Apenas cansaço. Real, direto, suficiente.

Curioso como o silêncio também pode ser uma forma de linguagem mais honesta do que certas elaborações.

Não se trata de rejeitar a poesia. Trata-se de não permitir que ela vire obrigação. Porque quando tudo precisa ser explicado demais, a sensação é de que nada foi realmente entendido.

E talvez o segredo esteja aí: não em dizer mais, mas em saber quando parar. Quando a explicação já passou do ponto e começa a roubar o espaço do que era simples.

No fim, há uma certa sabedoria em não transformar toda sensação em discurso elaborado. Algumas coisas só querem ser o que são — sem legenda, sem metáfora, sem tradução.

E está tudo bem assim.

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